terça-feira, 21 de julho de 2026

Tolkien, Tad Nasmith e o Cisne

Estava aqui pensando no tanto que cisnes aparecem na Primeira Era do Tolkien. Os que puxam os barcos telerin, Alqualondë — Porto dos Cisnes, os cisnes de Ulmo guiando Tuor, que encontra armas com tema de cisne... e não sei o quanto disso não é influenciado pela lenda medieval do "cavaleiro do cisne".


Ilustração de Ted Nasmith, em que cisnes voam atados à proa de brancos brancos, puxando-os.


A ideia básica é a de um cavaleiro que chega num barquinho puxado por um cisne e salva uma donzela em perigo, aquelas patacoadas de novela de cavalaria. Loherangrin é uma personagem do ciclo arturiano, aparece em Parsival (obra de Wolfram von Eschenbach) e é conhecido como o "cavaleiro do cisne".

Cartão do final do século XIX/ início do século XX, com Lohengrin desenhado. Ele usa armadura, um elmo e um escudo com símbolos de cisne, além de uma espada. Ele está num lago, dentro de um bote em forma de concha, sendo puxado por um cisne.


Em meados do século XIX, Richard Wagner, aquela pessoa... complicada, escreveu a ópera Lohengrin, já com o nome moderno da personagem, que novamente bota um coitado dum cisne pra puxar charrete aquática. O curioso é que há muita iconografia também de um escudo com a imagem de um cisne.


 
Mais algumas representações do herói.


É curioso porque esse tema foi retomado na história de Tuor, que encontra elmo, espada, cota de malha e um escudo que traz um grande emblema de asa de cisne sobre um fundo azul (segundo a variante da história em Contos Inacabados). Ele também é guiado por cisnes, mas num tom de contos de fadas.

E toda essa volta foi só pra dizer que gosto muito de como o Ted Nasmith ilustrou esse momento: ecoando a iconografia moderna da lenda do cavaleiro do cisne com um simples detalhe, ao representar um cisne inteiro em vez de só uma asa.

Tuor em Vinyamar, ilustração feita com guache, de Ted Nasmith. Nela figura Tuor em frente a uma pare-de e um pórtico de um castelo abandonado. Ele está rodeado de cisnes, que o guiaram até ali. Tuor usa um capacete com penacho de cisne, uma armadura, cota de malha, uma espada e um escudo comprido, que contém uma imagem de um cisne branco num fundo azul. Ele olha para o horizonte.



Texto adaptado de postagens na rede social Bluesky:

https://bsky.app/profile/ferques.bsky.social/post/3l7a7a5ldyl2x

Legendas das imagens a partir de descrições para acessibilidade.


quinta-feira, 9 de julho de 2026

Carta ao tio Zé Cardoso

Hoje seria seu aniversário. Teve choro aqui em casa,  teve abraço e lembrança. Passamos um tempo pensando e outro lembrando.

E deu saudade. Dos seus chistes, de quando, sentado, cruzava as pernas, colocava os dedos no queixo e se quedava a escutar, antes de dar sua opinião sobre um assunto, de forma ponderada. Posso dizer que copiei a pose, já que nossos temperamentos se assemelhavam, e foi um modo que encontrei de tê-lo sempre perto, pelo maneirismo.

Claro que discordei de uma coisa aqui e outra ali, e todos concordamos que quem se torna lembrança não vira santo, mas no seu caso, tio, dá para dizer que o resultado da soma é positivo.


muita saudade,

Fernando Cardoso

08/10/2019

domingo, 13 de outubro de 2024

Um textinho tímido

Fui uma criança tímida, mas sociável. Com o passar dos anos, fui virando um adolescente um pouco travado, mas de ânimo tranquilo e afável com todos, e só no começo da vida adulta descobri que sou introvertido, o que é bem diferente de ser tímido, pois nunca sofri (muito) ao socializar. Mesmo após essa descoberta, pude me identificar um bocado com um livro que ganhei de uma de minhas pessoas favoritas, o Manual de sobrevivência dos tímidos, de Bruno Maron.

O livro trata de forma divertida como funciona a cabeça de uma pessoa tímida — posto que Bruno se considera uma — e parte para a ação, informando os efeitos colaterais da timidez e dando instruções para fugir da socialização e o que fazer quando ela nos pega pelo colarinho. É um manual, afinal de contas, e tem um texto bem menos verborrágico e derrapante do que o das tiras mais famosas de Bruno, Dinâmica de Bruto, embora esses elementos ainda estejam lá, tímidos.

O texto escrito e as ilustrações são de Maron, e o Manual é o terceiro livro da editora Lote 42, publicado em 2013. Um dos laços curiosos que tenho com esse livro é que um de seus editores, há muito tempo, corrigiu um teste de revisão feito por mim para uma vaga em uma editora grande e me respondeu com extrema gentileza, apontando meus lapsos e elogiando meus acertos. Infelizmente ele se foi precocemente, como muitas das pessoas merecedoras de mais tempo neste mundo. Não consegui a vaga.

Como podemos ver, é um livro que foi bem escrito e ilustrado, bem editado e que deve ser bem lido, e que além de tudo serve de esconderijo em momentos de timidez.




terça-feira, 26 de maio de 2020

Oração de Santa Luzinha

Santa Luzinha
me alumia
brilha meus olhos
minha ilha
ponto escuro
em mar branquinho
menina dos olhos
num pratinho.

Santa Luzinha
rogai por nós
pescadores
agora e na hora
do nosso norte
e além.

domingo, 9 de setembro de 2018

Pedra de lumiar

vi o caso de um rapaz que o rio levou.
ajudava gente, fundou-se para onde tem indígena
gente ribeirinha, gente do país.
acabou que o rio levou.
ficou a memória para a família.
sorriso, dor, lembrança. orgulho de quem foi bom.
e a gente aqui vivendo, o rio passando.




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Esse poema é uma homenagem a Pedro Yamaguchi Ferreira, advogado e missionário leigo tomado pelas águas do Rio Negro. Topei com sua história por acidente, como tantas vezes acontece ao longo de nossas vidas, e fui tocado por ela.

Para saber mais sobre ele:

https://soundcloud.com/ana-maria-yamaguchi-ferreira/pedro-por-paulo-suess

https://www.ibccrim.org.br/boletim_artigo/4130-Pedro-Yamaguchi-Ferreira-foi-uma-honra-ter-conhecido-e-convivido-com-voce

https://www.oarcanjo.net/site/homenagem-ao-missionario-pedro-y-ferreira/

https://tremdascebs.blogspot.com/2010/06/palavras-de-pedro-fukuyei-yamaguchi.html

segunda-feira, 23 de abril de 2018

reminiscência

A solitude, de Camille Corot.

Quando era mais criança, ansiava por ter amigos, gente que gostasse das mesmas coisas que eu e com quem me identificasse. É o tipo de sentimento que todo mundo já teve, tenho certeza disso, mas neste caso, só falo por mim, mesmo porque não tenho permissão para falar sobre experiências que me foram contadas ou que não conheço.

Era um garoto de poucos amigos e conhecidos, mas de muita vivacidade quando aproximado, aquela mistura de criança quieta e dada, sem ser arredia. Gostava de brincar só, no meu canto, e assim cresci. Lembro do costume de fazer bonecos de papel, copiados de revistas em quadrinhos. Tudo muito simples. Era uma pequena diversão que tomava horas; eu tentava achar um modo de deixar aquele brinquedo bidimensional em pé sem que ele tombasse para frente ou para trás, fazia pezinhos que me permitissem colocar os bonecos em pé e montar cenas, coloria tudo, tentava fazer roupas. No final, não conseguia brincar muito bem com os bonecos, muito frágeis, mas me divertia – e eventualmente passava raiva – na montagem deles.

domingo, 8 de abril de 2018

Um dos pontos da vida é notar que sobre muitas coisas não há controle: você não decide em qual família nasce, sua cor, sua orientação sexual, suas características físicas, se vai perder cabelo no futuro, sua imunidade e probabilidade de ter certas doenças, os sentimentos que surgem e que se vão em relação a certas pessoas. Nada disso envolve escolhas de um modo absoluto.

A vida é um jogo de dados no escuro, jogado antes mesmo de você colocar seu pino no tabuleiro, e ela vai te levando de roldão. Se não souber lidar com isso, muita energia será gasta, e a chance do desespero lhe dominar em alguma parte do seu caminho será considerável. Fora disso, muito é mutável e passível de escolha, e é aí que entram o elemento humano de mudança e a coragem de encarar nossos parâmetros, que não escolhemos, e moldar nosso presente e futuro, que temos possibilidade de mudar, ao menos um pouco.


Viver não é nada simples