não basta ser branco
não basta ser homem
não basta ser velho
não basta ser rico
não basta ser tudo aquilo que já basta.
ainda por cima conspira
nomeia a criatura noturna
entrega a balança ao sicário
perpetua a infâmia de quem derribou e a aprofunda.
faz o que não convém a todos
e age à sombra, na calada
temendo o uivo e a vaia.
uma terra colossal,
que um pávido governa:
sob um signo ruim se apequena.
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quinta-feira, 1 de setembro de 2016
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Joaquim Barbosa, cotas, imagens
Originalmente postado no Facebook, dia 24/11/2012
Quem vem postando fotografias do ministro Joaquim Barbosa com textos anticota sabe que vem fazendo papel de bobo? Se não sabe, lá vai:
- Da transcrição da audiência pública referente ao tema de cotas na UnB (texto integral:http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/processoaudienciapublicaacaoafirmativa/anexo/notas_taquigraficas_audiencia_publica.pdf ), destaco a primeira fala do ministro J. Barbosa:
- Não sabe como funcionam as cotas na UnB? Por preguiça, comodismo ou preconceito? De qualquer modo, aí vai o link:http://www.unb.br/estude_na_unb/sistema_de_cotas#perguntas
- No Currículo Lattes do ministro, que surpresa, um livro sobre ações afirmativas:http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4781436A8#LivrosCapitulos
- Ainda sem esgotar o tema, vamos ao clipping do STF:http://www.stf.jus.br/portal/cms/vernoticiadetalhe.asp?idconteudo=206042
Perdi uns minutos pesquisando, mas só porque fiquei injuriado de ver como conseguem compartilhar mensagens pensando que dão peso ao que pensam e não percebem que apenas mostram que não sabem de que estão falando. Falando, não: "compartilhando".
Quem vem postando fotografias do ministro Joaquim Barbosa com textos anticota sabe que vem fazendo papel de bobo? Se não sabe, lá vai:
- Da transcrição da audiência pública referente ao tema de cotas na UnB (texto integral:http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/processoaudienciapublicaacaoafirmativa/anexo/notas_taquigraficas_audiencia_publica.pdf ), destaco a primeira fala do ministro J. Barbosa:
Senhor Presidente, Senhor Ministro Ricardo Lewandowski, senhores participantes, é com muita satisfação que também participo dessa cerimônia de abertura das audiências públicas que visam a colher subsídios de experts e representantes governamentais e da sociedade civil sobre o magno tema relacionado à questão da igualdade substancial ou da tentativa de inserção consequente de minorias no sistema produtivo e educativo do nosso País.
Vejo como extremamente alvissareira essa nossa primeira experiência. Vejo como o encontro da sociedade sobre um tema sobre o qual ela nem sempre quis discutir com a devida abertura. Vejo como extremamente positivo, e é um prazer estar aqui neste momento.
- Não sabe como funcionam as cotas na UnB? Por preguiça, comodismo ou preconceito? De qualquer modo, aí vai o link:http://www.unb.br/estude_na_unb/sistema_de_cotas#perguntas
- No Currículo Lattes do ministro, que surpresa, um livro sobre ações afirmativas:http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?metodo=apresentar&id=K4781436A8#LivrosCapitulos
- Ainda sem esgotar o tema, vamos ao clipping do STF:http://www.stf.jus.br/portal/cms/vernoticiadetalhe.asp?idconteudo=206042
Perdi uns minutos pesquisando, mas só porque fiquei injuriado de ver como conseguem compartilhar mensagens pensando que dão peso ao que pensam e não percebem que apenas mostram que não sabem de que estão falando. Falando, não: "compartilhando".
quarta-feira, 31 de julho de 2013
punição e justiça
Um cumprimento de sentença no sistema penitenciário deveria se pautar pelo afastamento do penalizado da sociedade, culminando numa futura ressocialização dele. Na real, o que acontece não é isso: é apenas castigo. Ninguém no Brasil é posto numa penitenciária para ser reeducado e entrar em consonância com seus pares, mas simplesmente para ser punido. Até porque penitenciária = lugar de penitência.
E ser "ressocializado" para quê? Para continuar sem um emprego decente, com um salário que dê para comprar aquilo que as propagandas jogam em nossa cara, que devemos ter? Celulares, carros novos, roupas com uma palavra estampada; emblemas de que você não está à margem. E como voltar a fazer parte da sociedade, se você nunca esteve efetivamente nela?
Um exercício básico e que poucos parecem praticar é o da alteridade. Coloque-se na posição do outro; pare de pensar que o *seu* lugar é dentro do carro e que o mal vai te atacar pela janela aberta do seu carro. Imagine-se morando na periferia. Imagine-se filho de migrantes. Imagine-se num contexto em que é mais fácil entrar para o crime do que conseguir um emprego. Imagine-se sem uma educação formal sólida (que deveria ser fornecida pelo Estado, lembre-se) que lhe permitisse passar em concursos públicos ou conseguir trabalhos de remuneração razoável.
Agora, imagine-se por outro prisma: o da vingança. O das paixões. O da justiça. Reflita se o que deseja é um país sem crimes ou se prefere que todo criminoso seja punido. No primeiro caso, a solução -- embora utópica -- seria dividir a renda e criar condições para que todo brasileiro, desde a infância, entrasse em contato com a cultura e tivesse condições dignas de moradia, de alimentação, de saneamento -- pense só na revolução interna pela qual o Estado deveria passar para isso acontecer, já que essa é a base da gênese de um cidadão; o segundo caso é mais simples: aumentar o número de presídios, diminuir a tão falada maioridade penal, aumentar e aparelhar o efetivo policial (sabe, a rrrota na rrrua?).
A primeira opção é virar o país do avesso em busca de uma igualdade mínima; a segunda, manter o statu quo, em que pessoas continuarão sendo mortas por ninharias, e os sobreviventes desejarão punição por vingança, por medo e pelo que julgam ser justiça.
E ser "ressocializado" para quê? Para continuar sem um emprego decente, com um salário que dê para comprar aquilo que as propagandas jogam em nossa cara, que devemos ter? Celulares, carros novos, roupas com uma palavra estampada; emblemas de que você não está à margem. E como voltar a fazer parte da sociedade, se você nunca esteve efetivamente nela?
Um exercício básico e que poucos parecem praticar é o da alteridade. Coloque-se na posição do outro; pare de pensar que o *seu* lugar é dentro do carro e que o mal vai te atacar pela janela aberta do seu carro. Imagine-se morando na periferia. Imagine-se filho de migrantes. Imagine-se num contexto em que é mais fácil entrar para o crime do que conseguir um emprego. Imagine-se sem uma educação formal sólida (que deveria ser fornecida pelo Estado, lembre-se) que lhe permitisse passar em concursos públicos ou conseguir trabalhos de remuneração razoável.
Agora, imagine-se por outro prisma: o da vingança. O das paixões. O da justiça. Reflita se o que deseja é um país sem crimes ou se prefere que todo criminoso seja punido. No primeiro caso, a solução -- embora utópica -- seria dividir a renda e criar condições para que todo brasileiro, desde a infância, entrasse em contato com a cultura e tivesse condições dignas de moradia, de alimentação, de saneamento -- pense só na revolução interna pela qual o Estado deveria passar para isso acontecer, já que essa é a base da gênese de um cidadão; o segundo caso é mais simples: aumentar o número de presídios, diminuir a tão falada maioridade penal, aumentar e aparelhar o efetivo policial (sabe, a rrrota na rrrua?).
A primeira opção é virar o país do avesso em busca de uma igualdade mínima; a segunda, manter o statu quo, em que pessoas continuarão sendo mortas por ninharias, e os sobreviventes desejarão punição por vingança, por medo e pelo que julgam ser justiça.
sábado, 13 de abril de 2013
Justiça, medo e vingança
Um cumprimento de sentença no sistema penitenciário deveria se pautar pelo afastamento do penalizado da sociedade, culminando numa futura ressocialização dele. Na real, o que acontece não é isso: é apenas castigo. Ninguém no Brasil é posto numa penitenciária para ser reeducado e entrar em consonância com seus pares, mas simplesmente para ser punido. Até porque penitenciária = lugar de penitência.
E ser "ressocializado" para quê? Para continuar sem um emprego decente, com um salário que dê para comprar aquilo que as propagandas jogam em nossa cara, que devemos ter? Celulares, carros novos, roupas com uma palavra estampada; emblemas de que você não está à margem. E como voltar a fazer parte da sociedade, se você nunca esteve efetivamente nela?
Um exercício básico e que poucos parecem praticar é o da alteridade. Coloque-se na posição do outro; pare de pensar que o seu lugar é dentro do carro e que o mal vai te atacar pela janela aberta do seu carro. Imagine-se morando na periferia. Imagine-se filho de migrantes. Imagine-se num contexto em que é mais fácil entrar para o crime do que conseguir um emprego. Imagine-se sem uma educação formal sólida (que deveria ser fornecida pelo Estado, lembre-se) que lhe permitisse passar em concursos públicos ou conseguir trabalhos de remuneração razoável.
Agora, imagine-se por outro prisma: o da vingança. O das paixões. O da justiça. Reflita se o que deseja é um país sem crimes ou se prefere que todo criminoso seja punido. No primeiro caso, a solução -- embora utópica -- seria dividir a renda e criar condições para que todo brasileiro, desde a infância, entrasse em contato com a cultura e tivesse condições dignas de moradia, de alimentação, de saneamento -- pense só na revolução interna pela qual o Estado deveria passar para isso acontecer, já que essa é a base da gênese de um cidadão; o segundo caso é mais simples: aumentar o número de presídios, diminuir a tão falada maioridade penal, aumentar e aparelhar o efetivo policial (sabe, a rrrota na rrrua?).
A primeira opção é virar o país do avesso em busca de uma igualdade mínima; a segunda, manter o statu quo, em que pessoas continuarão sendo mortas por ninharias, e os sobreviventes desejarão punição por vingança, por medo e pelo que julgam ser justiça.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
A mão pesada de um poder imaginário
Este texto não procura dar nenhuma solução para o problema do abuso de poder policial (no caso, municipal), apenas levantá-lo e aumentar a inquietação sobre o assunto, que, pelo andar das coisas, infelizmente demorará um bocado para se tornar obsoleto.
A cada dia temos mais e mais provas de como o modelo repressivo de manutenção da ordem, que herdamos do governo ditatorial (com resquícios da Primeira República, por sua vez com prováveis respingos da Força Pública imperial), não funciona.
Muitas vezes, a sanção vem antes de uma averiguação imparcial ou mesmo de uma conversa. Seja numa voz mais dura, numa proximidade corporal desnecessária, num tapa no rosto, numa imobilização, a sanção vem antes da elucidação. Há sempre um culpado, e a possibilidade de ele ser você é grande. O espaço público é tutelado por um braço irritadiço e pesado, que não sabe avaliar ou compreender as várias formas de uso desse espaço. Sabe-se apenas guardião e julga-se autorizado para usar de força na maioria dos momentos, mesmo que os regimentos digam o contrário. O cidadão que fugir à regra pode ser punido com uma desmesura que só quem já a sofreu sabe o tamanho.
Uma das bandeiras levantadas por algumas camadas da sociedade civil é acabar com o status militar da PM, o que seria um passo importante na reconstrução do imaginário de poder; não apenas uma mudança de nome, mas de estatutos e da visão que esses agentes de ordem têm de si e de suas funções numa sociedade sadia -- essa expressão chega a soar irônica, ou pior, utópica.
O problema é que isso não basta. É um passo importante mas não basta, como se pode provar pelas ações truculentas das guardas civis que têm chegado a lume pelas redes sociais, e exemplos disso não faltam: temos o caso do skatista curitibano em meados de 2012, o dos agentes municipais em Belo Horizonte e por aí vai. Uma busca rápida pelo Youtube provavelmente trará mais visões desse sintoma, basta gastar um minuto procurando (aqui nos voltamos mais às polícias municipais, mas não podemos esquecer das ações da Polícia Federal contra os Munduruku em 2012, menos uma atitude irracional do que um ato estratégico do Governo Federal, mas muito mais nocivo, por mostrar como o Estado pode se voltar contra seus cidadãos).
A Guarda Civil ou Municipal não tem status militar, mas muitas vezes partilha do delírio de poder de sua correspondente estadual, a PM. Numa análise rápida, o sintoma não nos permite encontrar a raiz do mal, mas depurar um futuro diagnóstico, o de que não é apenas o status militar que torna a polícia excessivamente violenta; devemos lembrar também da relação entre o imaginário de poder criado pela herança militar e as forças de ordem pública.
Não podemos esquecer que vivemos num país em que dois regimes foram derrubados com participação expressiva do Exército, e mesmo que seu poder hoje não seja tão nítido, resíduos dele se espalharam pela sociedade. Não há um viés político para escoar esse poder, que acabou se esvaindo e se transfigurando em pura força e em espasmos menores, todos abusivos e que fogem à real atribuição das forças de ordem. Num país sem tradição democrática como o nosso, o abuso do poder das forças de ordem é uma prática arraigada profundamente em nosso substrato, e será muito difícil arrancar estas raízes e preparar o solo para um Brasil menos truculento.
A cada dia temos mais e mais provas de como o modelo repressivo de manutenção da ordem, que herdamos do governo ditatorial (com resquícios da Primeira República, por sua vez com prováveis respingos da Força Pública imperial), não funciona.
Muitas vezes, a sanção vem antes de uma averiguação imparcial ou mesmo de uma conversa. Seja numa voz mais dura, numa proximidade corporal desnecessária, num tapa no rosto, numa imobilização, a sanção vem antes da elucidação. Há sempre um culpado, e a possibilidade de ele ser você é grande. O espaço público é tutelado por um braço irritadiço e pesado, que não sabe avaliar ou compreender as várias formas de uso desse espaço. Sabe-se apenas guardião e julga-se autorizado para usar de força na maioria dos momentos, mesmo que os regimentos digam o contrário. O cidadão que fugir à regra pode ser punido com uma desmesura que só quem já a sofreu sabe o tamanho.
Uma das bandeiras levantadas por algumas camadas da sociedade civil é acabar com o status militar da PM, o que seria um passo importante na reconstrução do imaginário de poder; não apenas uma mudança de nome, mas de estatutos e da visão que esses agentes de ordem têm de si e de suas funções numa sociedade sadia -- essa expressão chega a soar irônica, ou pior, utópica.
O problema é que isso não basta. É um passo importante mas não basta, como se pode provar pelas ações truculentas das guardas civis que têm chegado a lume pelas redes sociais, e exemplos disso não faltam: temos o caso do skatista curitibano em meados de 2012, o dos agentes municipais em Belo Horizonte e por aí vai. Uma busca rápida pelo Youtube provavelmente trará mais visões desse sintoma, basta gastar um minuto procurando (aqui nos voltamos mais às polícias municipais, mas não podemos esquecer das ações da Polícia Federal contra os Munduruku em 2012, menos uma atitude irracional do que um ato estratégico do Governo Federal, mas muito mais nocivo, por mostrar como o Estado pode se voltar contra seus cidadãos).
A Guarda Civil ou Municipal não tem status militar, mas muitas vezes partilha do delírio de poder de sua correspondente estadual, a PM. Numa análise rápida, o sintoma não nos permite encontrar a raiz do mal, mas depurar um futuro diagnóstico, o de que não é apenas o status militar que torna a polícia excessivamente violenta; devemos lembrar também da relação entre o imaginário de poder criado pela herança militar e as forças de ordem pública.
Não podemos esquecer que vivemos num país em que dois regimes foram derrubados com participação expressiva do Exército, e mesmo que seu poder hoje não seja tão nítido, resíduos dele se espalharam pela sociedade. Não há um viés político para escoar esse poder, que acabou se esvaindo e se transfigurando em pura força e em espasmos menores, todos abusivos e que fogem à real atribuição das forças de ordem. Num país sem tradição democrática como o nosso, o abuso do poder das forças de ordem é uma prática arraigada profundamente em nosso substrato, e será muito difícil arrancar estas raízes e preparar o solo para um Brasil menos truculento.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Samba
Lembro-me de um comentário do Chico Buarque sobre o samba, dizendo que a letra chorava e a música sorria. Minha mãe está aqui ouvindo Adoniran e notei que em muitos sambas paulistas a música também chora. Em compensação, muitas vezes a letra gargalha e nós gargalhamos juntos.
Adoniran Barbosa - Despejo na favela
Adoniran Barbosa - Acende o candeeiro
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Minhas aventuras de Tibicuera
Uma das melhores coisas que podem acontecer a quem é apaixonado por livros é justamente reencontrar uma paixão da infância. Qual não foi minha alegria ao ver sujinho e baratinho num sebo bagunçado perto de casa um desses amores tão importantes e tão profundos?
Era um livrinho miúdo de capa laranja que narra a história fantástica de um pequeno indígena ao longo de quatrocentos anos (sim, quatrocentos). O livro é As aventuras de Tibicuera e o autor, Erico Verissimo (1905-1975).
O adulto e civilizado doutor Tibicuera é morador de uma Copacabana que vivencia os fortes espasmos modernistas dos anos 1930, e é nesse ambiente que nos conta de forma romântica sua história, de seu nascimento em uma aldeia tupinambá até sua vida de cidadão num país republicano que descende dos navegadores europeus que há tanto tempo invadiram esta terra. O livro, com todo o poder da escrita de Erico voltado às crianças e aos jovens da década de quarenta em diante, anda esquecido. Eu mesmo não me lembrava dele, e não fosse o encontro fortuito no sebo continuaria sem lembrar, tendo apenas uma recordação difusa desse que, curiosamente, ia e vinha pela minha cabeça de tempos em tempos. Curioso, não?
O escritor de Saga não se furtou de inserir em sua narrativa infantojuvenil guerra, amor, morte, nostalgia e crenças diversas, entre outros temas. As aventuras de Tibicuera são as aventuras de nossa terra e compõem um romance de formação de nosso país que se estende ao longo de quatro séculos, formando um pequeno “livro de tudo”. Tomar Tibicuera como metonímia de Brasil não é exagero e essa é uma das chaves dessa grande obra.
A escrita é envolvente e trata a criança como alguém que deve se divertir e se esforçar na busca pelo entendimento do que está lendo. Na página que faz as vezes de prefácio, Erico Verissimo diz:
Eu podia encher este livro com notas explicativas de certas palavras. Prefiro, entretanto, que vocês recorram ao dicionário, habituando-se a consultá-lo em casos de dúvida ou desconhecimento. É um bom exercício não só de paciência como também de honestidade intelectual. E, no fim de contas, sempre gravamos melhor na memória o significado das palavras que nos levaram a folhear dicionários.
Isso é tratar a criança e o jovem como eles são, seres de potencialidades. O salto entre essa abordagem e a atual, que toma jovens e crianças como imbecis, é pungente – abram qualquer livro didático composto nos últimos dez anos e leiam qualquer poema que por ventura exista nele: possivelmente encontrarão um emaranhado qualquer de frases justapostas que subestimam os mais jovens. E ganha-se dinheiro, bom dinheiro, escrevendo bobagens que serão compradas por editoras ditas infantis e publicadas juntas a ilustrações de gosto duvidoso.
Falando em ilustrações, a de capa é de Clara Pechansky (1936-) e as de miolo de Ernest Zeuner (1895-1967), feitas numa época de excelência mágica para a arte de compor livros.
PS: Esse texto tem 11 anos e hoje penso um pouco diferente e de um jeito menos afetado sobre os livros infantis atuais, mas as notas sobre o livro do Verissimo permanecem. (São Paulo, 13/3/22)
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