quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Confessional

recriei você em minha cabeça
tão perfeita em seus erros e sorrisos,
quase uma deidade de cabelo esvoaçante
uma visão forte demais, uma visagem.

faço isso com todos: os refaço
você porém é diferente -
me domina sem esforço ou jugo
aparece no meio da noite e não diz nada
surge em meu computador e me abre o mundo
desponta andando no meio de um poema,
me olha de esguelha e vai embora

ora se fecha em copas
ora se abre em flor

aprendi a não lhe seguir
a deixar que venha ou parta
como uma pétala ao oceano, fugidia

recriei você em meu peito
você porém é diferente
- e saiba: de tudo.

Paisagem de Santos

a brisa atlântica não me traz certezas
talvez pequenas epifanias e algum sal
talvez, apenas
na dúvida, estou na praia e sinto o vento
e uma distância oceânica me beija os olhos

concluo que não sei nadar e não sei desistir.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Relato de insônia

Preciso dormir, mas os olhos aguçados pela treva acabam separando o breu do negrume, em semitons de formas. E o silêncio, que por vezes é o contrário da luz, aplica a sensação de presa voluntária em desespero de nunca ser predada.

O que seria a paz da ausência de claridade se transforma no transtorno de penumbra que é o quarto de um insone, com seus móveis perceptíveis por pupilas tão abertas quanto as fauces de um abismo.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Teco de poema

Eu tenho mania de escrever em tecos de papel e só descobri-los meses depois -- dentro de um livro, no guarda-roupas, enfiado num encarte de CD, na gaveta de talheres... é, bem por aí --, e por isso eu comecei a colocar textos inacabados aqui, geralmente como rascunhos, sem publicá-los.

Por ter gostado bastante deste poema inacabado, vou deixá-lo à mostra. A ideia veio depois de assistir Amor e de conversar com uma moça, arquiteta cheia de ideias e de monólogos curtos. Tem uma sombras de um platonismo bem pilantra aí no meio, espero poder esconder isso quando acabar.

no coração: átrios
a cornija na fronte.
as pernas são de coluna
e a coluna é uma corrente
que liga
as partes ao todo, indiferentes.

áurea na medida e na luz que carrega,
o corpo é obra perecível e eterna
é a própria forma-arquiteta.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Ser tímido

A conversa é -- ou pode ser -- fruto do trabalho de mineração do tímido. A palavra guardada sob o solo duro do silêncio precisa ser prospectada, ou as relações correm o risco de permanecer como a paisagem dura e fria de montanha.

Não é fácil. Camadas de rocha separam-nos uns dos outros, a terra, o húmus e a grama; as árvores ladeadas pelo vento. No núcleo da terra, o calor. Entre ele e a casca periférica, a palavra.