quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Sobre cabelos, a falta deles e o divertir-se consigo


Fayga Ostrower,  Tempestade (1999, aquarela sobre papel arches - 75,5 x 56,5 cm) 


Venho notando ao longo dos anos que algo em mim diminui pouco a pouco. De começo tive vergonha em aceitar tal mudança, decidi tomar medidas e remédios, tentei fazer o relógio retroceder; posso dizer que obtive um pouco de sucesso, mas desisti da empreitada. De que falo? De meus cabelos.

Na infância, a irmã me chamava de Ovelha, por conta dos cachos. Hoje, além dela, meus sobrinhos; virei o tio Ovelha. O vizinho de vovó me provocava com o apelido de Biro-Biro, e uma tia brincava comigo, "venha cá, senhor Deus Menino". Meus cachos sempre foram uma das características que me identificavam. Curioso, por ser algo tão externo. Nos prendemos demais às superficialidades, talvez porque seja este o primeiro ponto de contato entre as pessoas. Como o início de uma relação se dá pelo intermédio da visão, é natural que estereótipos se afirmem, e mesmo que os estereotipados se aferroem a esses lugares-comuns.

De minha parte, decidi assumir a carequice. Posição tomada há mais de dois anos, quando "parei de me cuidar" nesse aspecto, agora apenas aproveito as brincadeiras dos familiares e rio de mim mesmo, algo que sempre fiz, mas com mais um elemento nessa equação de autotiração de sarro. Levo-me na brincadeira, apesar de brincadeira ser coisa muito séria.

Ah, sim. Não estou calvo, mas com clareiras à moda franciscana, assim como meu pai esteve. Não sou de vaidades intensas, mas diria isso tem lá seu charme.