domingo, 29 de março de 2009

Roteiro n.º 0

Tanto peso sobre ombros fatigados.
Para todo lado ferro fundido,
fumaça e concreto fortemente armado.
O tom da estação é amarelado,
meio ressequido, cor de dente.

Lá no fundo da manhã
ainda há luz positiva, sem
o calor mundano do asfalto mole
que mistura chão e ar no horizonte.
A luz está distante, mas inatingível
pelo olhar, pela vontade
de não derreter nesta cidade,
nesta rua, neste mundo.

Essa compleição cadavérica pode,
sim, ser evitada. Busquemos
talvez o caminho negativo
e poucas vezes feito?
O dos eremitas das multidões?
Desviemos das facas lançadas e
das investidas cinzas daqueles
que querem nos derrubar ao chão.
Larguemos tudo enquanto é tempo?

Não.

Isolar-se não perfaz solução.
É antes camada dupla de véu sobre o problema.
O mundo não se abre muitas vezes, e
cabe a nós acharmos a saída
que elimine a poeira cáustica do concreto.
Se nossos olhos permanecem irritados
busquemos algo que alivie tudo isso.
E busquemos sem cessar,
pois talvez seja pela procura
que se possa encontrar
aquilo que chamamos de caminho.